Igreja Batista Nacional Ágape

Palavra Pastoral

Vinho Novo em Odre Velho - Parte 2

PARTE 2

Na primeira parte de nossa meditação vimos acerca da nova visão que Deus dera ao líder da Igreja, Pedro. Constatamos que ainda existem muitas igrejas e cristãos colocando vinho novo em odres velhos.

O grande problema é que muitos líderes cristãos e denominações não compreendem A GRANDE DIFERENÇA ENTRE O ANTIGO E O NOVO TESTAMENTO.

As seitas se formam, os cristãos erram, os pseudo-líderes enganam pelo simples motivo das pessoas não conhecerem a diferença gritante entre o Novo e o Velho Vinho. Assim como não dá para colocar remendo velho em roupa nova, assim o cristão tem que optar se irá viver pelas leis do Antigo ou do Novo Testamento (Veja Gálatas 5 e 6). Para ter a roupagem nova do Espírito, o cristão precisa ter como regra de fé e prática O NOVO TESTAMENTO, e não o Antigo. Cristo exclui qualquer obra reparadora. Precisa haver a produção de uma nova roupa.

Diante de tudo isso, nesta segunda parte iremos à hermenêutica bíblica. Vamos estudar qual a relação do cristão de 2008 com o Antigo Testamento. Devemos guardar o sábado? Podemos idolatrar? As ordenanças de Deuteronômio e Levítico servem para nós? Adulterar ainda é pecado?

Antes de iniciarmos este estudo, quero deixar muito claro que O ANTIGO TESTAMENTO É TÃO INSPIRADO QUANTO O NOVO TESTAMENTO. Um completa o outro. Em ambos Deus falou e orientou os homens a viverem segundo o seu propósito. Ainda, nas belas palavras de Henrietta C. Mears: “O Antigo Testamento é o alicerce; o Novo é a superestrutura... Um edifício é impossível, a não ser que haja um fundamento. Assim, o Antigo e o Novo Testamento são essenciais um ao outro”.

A NATUREZA DA BÍBLIA

A Bíblia, à semelhança da pessoa de Cristo, é humana e divina. Ela é a Palavra de Deus escrita por pessoas. É esta dupla natureza da Bíblia que exige da nossa parte a tarefa da interpretação.

Porque a Bíblia é a Palavra de Deus, tem relevância eterna: fala para toda a humanidade em todas as eras e em todas as culturas. Nossa função é escutar e obedecer. Contudo, porque a Bíblia foi escrita por homens através da história, ela tem uma particularidade histórica (foi escrita a um povo, numa determinada época, que usava determinada linguagem e estava inserido numa certa cultura). Assim, temos que interpretar a Bíblia devido a esta “tensão” existente entre a relevância eterna e a particularidade histórica da Bíblia.

Existem pessoas que lêem a Bíblia somente pela sua relevância eterna. Porque é a Palavra de Deus, tendem a pensar nela como sendo apenas uma coletânia de proposições e ordens a serem obedecidas e ponto final. Há, por exemplo, cristãos que baseados em Deuteronômio 22.5 (que diz: “A mulher não usará roupa de homem”), argumentam literalmente que a mulher não deve usar calça comprida nem short. Pergunto, porém, porque estas mesmas pessoas que cumprem o versículo 5 não cumprem também a construção de um parapeito no telhado da casa (vers. 8), a não plantação de dois tipos de semente numa vinha (vers. 9), a fabricação de borlas nos quatros cantos do manto (vers. 12). Pergunto por que não matam os adúlteros da igreja, já que no versículo 22 manda matar “o homem que for achado deitado com a mulher casada”? Além do mais, para sabermos se uma mulher está vestindo roupa de homem, precisamos ter conhecimento de como a cultura em que ela está inserida determinou o que um homem e uma mulher devem vestir.

OS CRISTÃOS E A LEI DO ANTIGO TESTAMENTO

Na maioria das ocasiões em que “Lei” é mencionada na Bíblia, significa a coletânia de matéria que começa em Êxodo 20 e continua até o fim de Deuteronômio. Embora Gênesis não contenha nenhum mandamento, é incluído nos 5 Livros da Lei, chamado o Pentateuco, a saber: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

Dando uma olhada rápida nestes 5 primeiros livros bíblicos, você verá que nem tudo contido ali está em forma de mandamentos. Porém, é uma formulação legal, e portanto, chama-se de Lei do Antigo Testamento.

O problema mais difícil para a maioria dos cristãos no que diz respeito a estes mandamentos é o problema hermenêutico. Como estas leis se aplicam a nós, ou será que não se aplicam? Para entendermos melhor, segue abaixo, um resumo sobre como interpretar a Lei do Antigo Testamento.

5 DIRETRIZES ESCLARECEDORAS

1 – A Lei do Antigo Testamento é uma Aliança: Uma aliança é um contrato obrigatório entre 2 partes, sendo que as duas têm obrigações especificadas na aliança (ou contrato). Nos tempos do A.T., muitas alianças eram do tipo ALIANÇA DE SUSERANIA. O Suserano (chefe supremo) fazia um acordo com um Vassalo (servo), a parte mais fraca e dependente. O Suserano garantia ao Vassalo benefícios e proteção. Por sua vez, porém, o Vassalo era obrigado a ser leal somente ao Suserano, com a advertência de que qualquer deslealdade acarretaria castigos conforme as especificações na aliança. Como o Vassalo mostraria fidelidade? Ora guardando as regras do contrato. Se o Vassalo violasse as estipulações, o Suserano tinha o dever, segundo a aliança, de empreender ações para castigar o Vassalo.

Deus dispôs a Lei do A.T. segundo a analogia destas alianças antigas. Assim, foi constituído um contrato entre Jeová, o Senhor Supremo, e Seu Vassalo, Israel. Israel, em troca dos benefícios e da proteção, tinha de guardar as mais de 600 estipulações (mandamentos) contidas na aliança Êxodo 20 até Deuteronômio 33.

2 – O Antigo Testamento NÃO é nosso Testamento: Testamento significa pacto, aliança. O Antigo Testamento representa uma VELHA aliança, que já não estamos obrigados a guardar. Nenhuma das estipulações (leis) do Antigo Testamento são obrigatórias para nós a não ser QUE SEJAM RENOVADAS NA NOVA ALIANÇA (Novo Testamento). Ou seja: Se Jesus Cristo ou algum dos apóstolos (escritores do Novo Testamento) não reforçaram uma lei do Antigo Testamento, A IGREJA CRISTÃ NÃO É OBRIGADA A GUARDAR.

Exemplo 1: O Antigo Testamento manda guardar o sábado (Êx 20.8-11). O que disse Jesus? Ele disse que o homem é mais importante que o sábado (Mc 2.27. Veja também Mt 12). Já Paulo, em Romanos 14, disse que o homem é livre se quiser guardar, mas que faça para o Senhor. Assim, o cristão é livre para guardar ou não o sábado. Se guardar, contudo, não coloque isso como regra de salvação, pois é pela graça que somos salvos, por meio da fé. Não é através das obras (Ef 2.8).

Exemplo 2: O Antigo Testamento disse que é errado adulterar (Êx 20.14). Já Jesus, nosso Mestre, foi mais fundo ainda, dizendo que se olharmos para uma mulher com intenção impura, já no coração cometemos adultério (Mt 5.27-28). Logo, o cuidado é maior.

3 – Algumas Estipulações da Antiga Aliança claramente não foram renovadas na Nova Aliança: As leis pentateucais são agrupadas em duas categorias principais: Leis Civis Israelitas e Leis Rituais Israelitas. As Leis Civis são aquelas que especificam penalidades para os crimes pelos quais uma pessoa podia ser presa ou processada em Israel. Tais leis aplicam-se somente aos cidadãos do Israel antigo e ninguém que vive hoje é um cidadão do Israel antigo. As Leis rituais acham-se principalmente em Levítico (embora apareçam também em Êxodo, Números e Deuteronômio). Estas Leis informavam como o povo de Israel deveria cultuar a Deus (liturgia, implementos da adoração, responsabilidades dos sacerdotes, o sacrifício dos animais, etc). Quando o sacrifício de Jesus foi realizado na Cruz do Calvário, de uma vez por todas, as Leis rituais da Velha Aliança foram anuladas.

4 – Parte da Velha Aliança é renovada na Nova Aliança: Que parte é essa? É a parte ética. Obviamente Deus quer que os cristãos continuem a aplicar a ética do Antigo Testamento (o amor, a santidade, a adoração a um único Deus, o zelo com as Escrituras, a crença no sobrenatural de Deus). Em Mateus 5.21-48 e 22.40 vemos que Jesus tira seleções dalgumas leis do antigo Testamento e dá nova aplicabilidade. Assim, alguns aspectos éticos da Velha Aliança se constituem numa obrigação para os cristãos.

5 – A totalidade da Lei do Antigo Testamento ainda é a Palavra de Deus para nós, ainda que não continue sendo o mandamento de Deus para nós: A Bíblia contém muitos tipos de mandamentos acerca dos quais Deus quer que saibamos, mas que não são dirigidos para nós pessoalmente. Um exemplo é Mateus 11.4, onde Jesus ordena: “Ide, e anunciai a João ...”. Ora, o auditório original daquela ordem são os discípulos de João Batista. Lemos acerca do mandamento, mas não é um mandamento dirigido a nós. Semelhantemente, o auditório da lei do Antigo Testamento é o Israel antigo, e não a Igreja de Cristo.

O PAPEL DA LEI

A esta altura, alguns podem estar se perguntando: Mas então por que serve o Antigo Testamento? Outros ainda podem não querer mais ler o Antigo e destituí-lo de qualquer valor. Contrariando este pensamento, volto a afirmar o imenso valor do A.T. e mencionar o que Paulo disse em 2 Tm 3.16: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça”.

A Lei é uma parte valiosa na Bíblia. Funcionou na história da salvação para nos “conduzir a Cristo” (Gl 3.24), e demonstrar quão altos são os padrões da justiça de Deus e quão impossível é para alguém realizar aqueles padrões sem a ajuda divina.

CONCLUSÃO

Teríamos muito a falar sobre o valor, utilidade e papel da Lei em nossas vidas, cristãos de 2008. Há muitos textos no Novo sobre a diferença e papel da Antiga Aliança na vida da Igreja. Contudo, dado o valor excessivo e maléfico que algumas igrejas têm dado às ordenanças e símbolos do Antigo Testamento, meu objetivo neste estudo é orientar: NÃO COLOQUEM REMENDO DE PANO NOVO EM VESTIDO VELHO! NÃO PONHAM VINHO NOVO EM ODRES VELHOS! O negócio não vai dar certo. Isso vai estourar. Você vai entrar em confusão espiritual e fraquejar na fé.

Leiam o Antigo Testamento, meditem e preguem. Porém, sigam o Novo Testamento. Vivam o Novo. Se embriaguem do Novo. Glórias a Deus pelo Novo. “Eis que tudo se fez Novo ...”.

Se Deus nos deu algo novo, é porque até Ele estava cansado do velho. Deus é Deus de coisas novas, frescas. Novas revelações, novas experiências, novas ministrações, novas bênçãos. Mas para tudo isso acontecer, tem que trocar de vez essa roupa velha e rasgada. Pare de ficar com remendos. Nossa vida não é aquelas colchas antigas de nossas avós, formada por inúmeros retalhos. O Espírito Criador tem muito mais para nós do que “os bons tempos do Egito”. Por isso, mude e ande na moda do Reino, a Moda da Graça.

O presente estudo foi uma síntese do Livro “Entendes o que lês?”, de Gordon D. Fee e Douglas Stuart. 1ª ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984. Págs 138-142. Recomendo a todos os cristãos a leitura deste pujante livro.

Ev. Rafael Pasqualotto

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