PARTE I
Ele era um homem tosco e impulsivo. Um pescador por profissão e religioso por princípio. Um judeu volátil e imprevisível, que emergiu como o líder mais influente da Igreja Primitiva.
É Pedro, o apóstolo. Pedro, o impetuoso. Pedro, o pregador do Pentecostes. Um dia, ele pulou do barco e andou sobre as águas, pregou a milhares, sua sombra curou, levantou o paralítico na Porta Formosa, teve a revelação que Jesus era o Ungido e tantas outras experiências lembradas e escritas pelos evangelistas. Mas agora é meio-dia, e o Espírito Santo está para quebrar um grande dogma na vida do mais notável dos Doze e transformá-lo de uma vez por todas num homem-rocha.
O sol escaldante brilha no céu da Palestina, e Pedro sobe ao terraço da casa de um curtidor chamado Simão para orar. Estando a orar, sente fome. Sua mente vagueava, e ele entra em êxtase. Após, tem uma visão espantosa: um grande lençol desce do céu, cheio de mamíferos, répteis e aves “impuros”. O texto de Atos 10 não dá pormenores, mas em Levítico 11 a Bíblia nos relata que tipo de animais desciam do céu de Jope: porcos, camelos, coelhos, abutres, corvos, corujas, cegonhas, morcegos, formigas, besouros, lagartos, camaleões, ratos, cobras, etc.
Para o apóstolo, como para qualquer judeu palestino, tais animais eram mais do que repugnantes – eles constituíam tabu, eram abomináveis. Agora esses bichos estavam descendo em um lençol com uma voz celestial ordenando: “Levante-se, Pedro, mata e come” (Atos 10.13).
A vida inteira Pedro aprendeu que isto estava errado. Posso imaginar Pedro na infância ouvindo de sua mãe: “Simão, isso é porcaria! Se você tocou naquele porco vai ficar de castigo o dia inteiro. Eu te avisei!” ou “Criança desobediente. Eu lhe avisei para não brincar com besouros. Nossa Lei não permite” – sua mãe gritando enquanto lhe puxa a orelha, ao som das risadas de André, seu irmão.
Em virtude de tudo isso, o galileu protesta: “De modo nenhum, Senhor! Nunca comi coisa alguma comum e imunda” (Atos 10.14). A voz respondeu: “Não faças tu comum ao que Deus purificou”.
Em seu célebre livro “Maravilhosa Graça”, Philip Yancey explica que os cristãos que hoje comem carne de porco, lagosta, lagarto não captam facilmente o impacto deste acontecimento com Pedro. Para isso, o autor faz o seguinte paralelo: Imagine se, no meio de uma convenção de determinada igreja evangélica, um bar totalmente equipado descesse de maneira sobrenatural no meio do culto e uma voz trovejante vinda do céu insistisse com os abstêmios: “Bebam”. Com certeza alguns reagiriam: “Claro que não, Senhor! Somos crentes. Nunca tocamos nessas coisas”.
Pedro, abalado em seu coração, desceu as escadas e deu de cara com o próximo susto do dia: um grupo de gentios “impuros”, que desejava juntar-se ao grupo dos discípulos de Jesus.
O texto base desta meditação se encontra no Evangelho de Mateus 9.16-17. Nele, Jesus orienta, exegeticamente, a um grupo de religiosos, que todo o sistema que Ele estava criando não era algo saturado de coisas velhas, mas algo totalmente novo. Daí a parábola: “Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho ... Nem se põe vinho novo em odres velhos”.
Cristo anula a antiga lei levítica e oferece o decreto da nova lei, a Lei do Espírito (Gl 5.18). Forçar os seus novos ensinos sobre fórmulas antigas traria decomposição e ruína. Tomar as suas verdades e procurar colocá-las em qualquer outro formato diferente dos Seus, seria como estragá-las como um vinho não fermentado. Assim, o Evangelho de Jesus (a liberdade no Espírito, os dons outorgados à Igreja, o sacerdócio de todos os crentes, o amor de Deus aos perdidos, judeus ou não) é comparado ao Vinho Novo. Os antigos fariseus, contudo, persistiam, pois achavam que o velho vinho da lei era melhor.
O apóstolo Pedro certamente ouviu esta ordem de Jesus, mas esqueceu. Cometeu o tremendo erro de colocar vinho novo em odre velho. Cego, achou que poderia conciliar a nova doutrina de Cristo com o velho e tradicionais ensinamentos de seus pais. Apesar de corajoso em outras passagens neo-testamentárias, faltou ousadia para mudar. O apego à Antiga Aliança, o egoísmo de achar que “Adonai” era somente dos judeus, excluiu gentios, como Cornélio, da Presença do Rei.
Há pouco tempo atrás o Espírito Santo me fez compreender e ver quantas vezes agimos como Pedro: colocamos vinho novo em odre velho. Não queremos aceitar a nova doutrina do Reino. Não concordamos com a Boa-Nova de Jesus que DEUS É DE TODOS. Como Pedro, oramos, sentimos fome e sede pelas almas, mas quando Deus manda “Cornélio”, o expulsamos com nossas pregações e maneira de agir. Afinal, “Cornélio não está vestido adequadamente, ele é da seita tal, usa barba, tem posses, sua esposa tem muitos adornos no cabelo e sua túnica é pequena demais”. Ao entrar na igreja alguém diferente de nossa maneira de vestir e agir, rotulamos logo como um “impuro” e o rejeitamos.
Rogamos pelo avivamento, mas tem que ser da nossa velha maneira de entender as coisas. Ainda estamos presos na velha lei, em mandamentos do Velho Testamento, em ordens caducas que foram escritas para um outro povo, e não para nós. Levamos para a Igreja inúmeras tradições de nossos antepassados e da nossa vã maneira que outrora vivíamos, cheios de superstições e fábulas. Coxeamos, ora em mandamentos do Novo Testamento, ora em mandamentos do Antigo Testamento. Cremos que vamos ser salvos pela graças, mas “ai” daquele que não guardar o sábado. Sabemos que as leis de Deuteronômio eram somente para a Antiga Aliança, mas ainda pregamos Deuteronômio 22.5 (“A mulher não usará roupa de homem ...”).
O Espírito Santo conclama a olharmos e seguirmos a NOVA LEI. Basta da Igreja Cristã pregar, ordenar e viver mandamentos que não pertencem a ela. Chega de colocarmos este precioso e novo vinho (fabricado há mais de 2 mil anos) em odres extremamente velhos (feitos lá no Sinai).
Este incidente no telhado desta casa em Jope nos diz muita coisa. Creio que a principal delas é: MUDE! ACEITE A BOA-NOVA DE DEUS.
Nós resistimos a mudanças. Mudar dá trabalho, cansa, tira o sossego e assusta. Nos acomodamos a determinadas situações e condições pelo medo do desconhecido. Porém, para que determinadas coisas aconteçam em nossas vidas além da coragem e determinação é preciso muita ousadia. Liberte-se deste vinho e deste odre que já cheira mal. Largue este óleo rançoso. Beba este novo vinho de Deus. Os ébrios deste velho vinho, devido à ressaca causada pelo mesmo, virarão o rosto para você, não o entenderam o rangerão seus dentes. Contudo, você será tão cheio que, como os bem-aventurados de Pentecoste, acharão que estás bêbado (Atos 2.13). Diga a eles que é um novo tempo: Tempo de alegria, liberdade e gozo no Espírito Santo.
Continua ...
Ev. Rafael Pasqualotto